COLUNA: O país dos insanos

0
0

A repercussão negativa da fala do ministro Paulo Guedes sobre o AI-5 foi emblemática e deveras explicativa. Pelo o conteúdo dos jornais, das falas dos congressistas e dos leigos tagarelas, Guedes pareceu sair da economia e aspirou um tanque militar para derrubar as instituições e fazer do governo Bolsonaro uma ditadura neoconservadora e liberal, a implementar no porrete as políticas da atual administração. 

”É inadmissível, a todo momento, uma declaração que remonta ao passado triste da nossa história, como o retorno do AI-5, vir à tona”, disse Davi Alcolumbre, presidente do Senado. “Ele (Guedes) gera uma insegurança na sociedade e, principalmente, nos investidores. Usar dessa forma, mesmo que sendo para explicar o radicalismo do outro lado, não faz sentido”, disse Rodrigo Maia, presidente da Câmara. Os dois chefes do Legislativo reverberam o que a oposição e a grande mídia disseram, a velha e cansada histeria de sempre.  

E o que de fato falou Paulo Guedes? Isto aqui. ”É irresponsável chamar alguém pra rua agora pra fazer quebradeira. Pra dizer que tem que tomar o poder. Se você acredita numa democracia, quem acredita numa democracia espera vencer e ser eleito. Não chama ninguém pra quebrar nada na rua. Ou democracia é só quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo pra quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem então se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente?” 

Notem o seguinte fato: Guedes não defendeu em momento algum o uso do AI-5 como política de governo ou modus operandi para lidar com a oposição. Parece óbvio demais para maiores considerações.  

Mas no Brasil as coisas funcionam com uma lógica diferente – ou mesmo a falta dela. Aqui as pessoas não conseguem raciocinar a partir do que fulano ou sicrano disse. Não entendem a coisa dita; entendem aquilo o que acham que a pessoa quis dizer. Tiram conclusões absurdas nunca pensadas ou desejadas por aquele a dizer tal frase ou palavra. A interpretação de terceiros é a regra inviolável, cláusula pétrea do analfabetismo funcional entre letrados incultos. 

Além da incapacidade cognitiva ser a marca nos debates, outro traço chama atenção neste tipo de situação: a vitimização absurda. A cada frase proferida por alguém da atual administração federal, a interpretação terceirizada trata de colocar o próprio governo como vilão de gibi e tachar o presidente ou os seus ministros das piores adjetivações possíveis. Toda e qualquer opinião diferente do consenso é vista pela manada como ”retrógrada, revisionista, ameaça à democracia e fruto da ignorância”. Bolsonaro está sempre a ofender alguém, ridicularizar quem discorde dele ou a replicar alguma fake news – nesses casos a imprensa parece ter se olhado no espelho. 

Tudo isso tem um propósito bem definido: colocar o governo Bolsonaro e os seus apoiadores como integrantes de uma corrente de pensamento inaceitável aos olhos da verdade e do bom senso. A direita política não tem direito de governar o país e ter uma base eleitoral sólida; tal privilégio é exclusivo de seus antagonistas. 

Esse misto de incultura e vitimização forma o imaginário não apenas da esquerda ou dos militantes fanáticos. A cada dia que passa fica claro a fácil percepção de o Congresso Nacional estar cheio de crianças mimadas e toscamente burras. Pessoas sem a mínima capacidade de representar a população falam com uma autoridade de quem está no topo das virtudes intelectuais e morais, quando tudo o que se vê é exatamente o oposto. 

Se no Congresso o quadro é esse, na imprensa brasileira não é nada diferente. De comentaristas políticos a apresentadores, o desprezo pelo conhecimento é patente e a opinião sobre coisas que eles não conhecem é o fio condutor de uma tragicomédia intelectual. Olavo de Carvalho não é filósofo, dizem; em seguida, afirmam nunca perderem tempo com as obras do autor que eles opinam com ar de superioridade, pois ele não é digno de tal façanha. Realmente o quadro brasileiro é uma depressão sem fim. 

Paulo Guedes foi o alvo da vez. Ele é achincalhado pela malícia pérfida misturada com a incapacidade cognitiva de seus antagonistas. Ele deu a oportunidade para mostrar o que o Brasil de hoje é: um país de insanos. 

Referências: 

  1. https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/11/declaracao-sobre-ai-5-e-inadmissivel-diz-alcolumbre-apos-fala-de-guedes.shtml  
  2. https://www.terra.com.br/noticias/maia-sobre-guedes-gera-inseguranca-na-sociedade,609552523fd1f60d07e526925d3c8502bw5gyf61.html  
  3. https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/11/26/paulo-guedes-fala-da-possibilidade-de-novo-ai-5-se-corrige-e-diz-que-e-inconcebivel-declaracao-provoca-reacoes.ghtml  

LEIA NO SITE » COLUNA: O país dos insanos

Fonte: https://renovamidia.com.br/coluna-o-pais-dos-insanos/